DE VOLTA DA GUATEMALA: CAMINHOS, ENCONTROS E APRENDIZADOS

Tem pedacinhos da vida que nos ensinam, em dias, o que levaríamos evos. Qual o propósito de certos acontecimentos em nossa caminhada? Qual a lição embutida em algumas histórias? Pois é… a que agora sai de nossos corações e memórias e vai pro “papel” – melhor dizer pras telas – seria por certo contada, mais cedo ou mais tarde, até mesmo pra não acumular karma (risos). E ela trouxe consigo, além dos inevitáveis aprendizados, felizes encontros nos caminhos pelos quais percorremos.

Primeiro de tudo: foi uma experiência única e que mexeu muito conosco, sendo o resgate dessa história muito importante pra mim e Gardênia… nem passou por nossa cabeça aprisioná-la como mera lembrança, pois isso é parte do nosso legado como viajantes à bordo da nave Terra. Segundo, não seria razoável, pois alimentamos um blog de viagens, no qual relatamos nossas vivências e impressões sobre os lugares por onde passamos. E, por fim, há muitas pessoas queridas que ainda não tiveram a chance de saber, em detalhes contados por nós, como foi aquela aventura: em plena pandemia declarada naqueles dias pelas Nações Unidas, as portas dos países sendo fechadas e nós dois, “ilhados” na Guatemala, surpreendidos por uma realidade maluca e perigosa que nos obrigou a “maquinar” um jeito de voltar logo para o Brasil.

Estranho, mas algo bloqueava esse registro. Lá se vão mais de sete meses… e era esperável que essas lembranças fossem logo transformadas em escritos, pra não correr o risco de perderem-se detalhes, tal qual a imagem borrada de uma paisagem vista através de um vidro embaçado. O fato é que fomos deixando, adiando, adiando… mas estava tudo lá, uma história à espera de mãos dispostas a escrevê-la, um gesto que as nossas próprias o fazem agora. Como diz Stephen King, “mais cedo ou mais tarde, todas as histórias chegam a algum lugar”…

A decidir, o tom que essa narrativa teria… saturar na emoção? Quais pontos a destacar? Usar um formato descritivo, que parece cair bem em relatos assim? Caprichar nos detalhes? Usar bom humor, expressar nossa indignação com alguns fatos? Citar pessoas (na verdade, anjos que nos apareceram)? Escancarar nossa gratidão ao Universo por tudo e pelo desfecho das coisas?… Talvez uma mescla disso tudo, porém, sem exageros, respeitando nossos limites para descrever os acontecimentos.

Garantimos que o que tiver expresso nos parágrafos adiante é algo autêntico, real, e que marcou muito nossa história como pessoas apaixonadas por viagens, como publicamente nos reconhecemos; e nem os perrengues por que passamos na Guatemala nos tiraram um milímetro sequer da vontade de continuar nossas expedições por aí, enquanto Deus permitir. No entanto, foi sim um peso emocional apertar o botão da cabeça que desencavou tais memórias. Neste exato momento, ao menos pra nós, é confortador pensar no alívio de aquilo tudo ter passado… e agora, a chance de contar pra vocês.

E então, vamos lá? Mas… começar por onde? Bem… fiz essa pergunta algumas vezes, até que, uns dias atrás, relembrando que essa história ainda não havia sido contada, Gardênia recordou que a ficha começou a cair quando paramos naquele posto de combustíveis, em Antigua, pra abastecer o carro antes de devolvê-lo à locadora… ali também nos deliciamos com um cafezinho guatemalteco, daqueles que gosto e cheiro permanecem pra sempre na memória…

A partir desse marco, as lembranças vieram em turbilhão, como um filme rebobinado em alta velocidade. Corri pra tomar notas. Em apenas duas horas, foram dezenas de tópicos. Eita!… Vem aí um livro, ao invés de um artigo no blog (risos)… ao desdobrar os detalhes, e com uma boa dose de esforço e paciência, até que daria pra fazer uma brincadeira dessas.

Bem… desembarcamos na Guatemala em 12 de março, após uns dias na região de Nova York. Era um roteiro há tempos desejado: ir ao evento anual do Instituto Salto Quântico, em Manhattan, e, na volta, passar pela América Central, num daqueles países incomuns aos olhos do turismo de massa… assim fizemos. Já na chegada, no aeroporto La Aurora, na Cidade da Guatemala, uma fila interminável para medição de temperatura e coleta de informações de todos os forasteiros… eram os primeiros sinais do que viveríamos nos dias seguintes.

A cultura Maia nos chamava e queríamos ver alguns monumentos incríveis deixados por aquele povo e sua história de rara beleza. As maravilhas naturais da Guatemala enchiam nossos olhos de curiosidade, entre vulcões, lagos e florestas exuberantes. Um povo com traços inconfundíveis, o colorido do artesanato, o cheiro inebriante do café espetacular que eles produzem, as iguarias que provamos… Por certo, um roteiro bacana para aquela ocasião. Bem… sobre essas vivências (o pouco que conseguimos experimentar), contamos depois, noutro post… em breve…

Vista de Antigua, a partir do Cerro de la Cruz

Antigua nos hospedou com muito gosto. É uma preservada e colorida cidade histórica da Guatemala, rodeada de vulcões e que já foi a capital do país. A partir de lá, aconteceriam nossos passeios pela região. Um desses nos levou a algumas cidadezinhas próximas à Antigua, trajeto que fizemos de carro. Porém, ainda na pousada, no café da manhã, antes de pegarmos estrada, um casal de franceses nos perguntou sobre nosso voo de volta, se estava tudo bem, querendo dizer (e só depois entendemos o motivo daquele questionamento): não cancelaram o voo de vocês?

No tal posto de gasolina, já na volta do passeio às redondezas de Antigua, abrimos a Internet pra pesquisar algo e nos deparamos com notícias bombásticas no perfil “Guatemala” (Instagram) sobre o fechamento de alguns parques, museus, sítios históricos e outros lugares turísticos no país… só o gosto maravilhoso do cafezinho aplacou um pouco a estranheza daquela informação na imprensa… a partir dali, nossa relação com a viagem seria alterada, pois outras descobertas igualmente infelizes chegariam, em níveis cada vez mais preocupantes e quase assustadoras, e que exigiriam de nós boas doses de paciência e planejamento, indignação e preces, sangue frio e atitude, intuição e fé.

Voltamos à cidade, devolvemos o carro e fomos rápido pra pousada… era 16 de março, dia em que o Presidente da Guatemala havia adotado algumas medidas pra conter a disseminação do dito cujo (o talzinho do vírus). Por ser médico, responsável e estar ciente da gravidade do problema (diferentemente de uns genocidas que há por aí… entendedores entenderão), o Presidente resolveu “fechar as portas” da Guatemala. Porém, ainda não sabíamos direito em que grau as coisas estavam… havia rumores, inclusive, de fechamento do aeroporto internacional da capital do país. E isso seria (e foi) um problemão pra gente tratar.

Daí por diante, nosso quarto na pousada transformou-se numa central de pesquisa. Começamos a levantar, nas agências de viagem que contratamos, quais os passeios seriam mantidos ou já estavam cancelados, pra gente rearrumar a vida, a partir de então. E-mail pra lá, resposta pra cá, apuramos que já estava cancelada a visita ao Parque Nacional Tikal, principal sítio histórico da civilização Maia e uma das atrações que nos levaram à Guatemala; e também a navegação pelo Lago Atitlán, uma das vistas mais espetaculares dos vulcões que emolduram a região próxima a Antigua. Imagine a frustração!… Que balde de água congelante foi derramado sobre nossos corações, quando soubemos daquilo… mas, paciência. Era preciso enfrentar as notícias e nos resignar… afinal, nada acontece sem propósito.

Fez parte da via crucis cuidar das passagens aéreas. Nosso voo de volta ao Brasil estava previsto pra 21 de março e até tentamos antecipar nosso retorno, após ficarmos pendurados ao telefone por intermináveis duas horas, pois a espera por atendimento estava longa… os viajantes, aos milhares, abarrotavam as centrais telefônicas das empresas aéreas em busca de informações. Nada feito. Não havia voos disponíveis e teríamos mesmo que aguardar… em nosso e-mail, nenhuma notificação da Copa Airlines sobre nosso voo… estranho, muito estranho!…

Antigua e sua tranquilidade

Descansamos um pouco na pousada, mas ainda tivemos pique pra andar pelas ruas coloridas de Antigua e constatar a cidade esvaziando, os turistas indo embora, os estabelecimentos fechando as portas devagarinho, as ruas silenciando e as nativas sem conseguir vender seu artesanato. Um movimento estranho e triste, pra um lugar acostumado a contar com a presença alegre de gentes de todas as tribos e credos, especialmente naqueles dias da quaresma, período em que acontece na cidade uma tradicional procissão, que chega a reunir centenas de milhares de pessoas, entre curiosas e devotas, vindas de todo canto… tudo adiado, até sabe lá Deus quando. E isso era inédito em Antigua.

Pegamos nosso transporte para a capital, no dia seguinte, como planejado. Na estrada, um fato nos chamou atenção: um comboio de dezenas de micro-ônibus, no sentido da Cidade da Guatemala, repletos de bagagens amarradas no teto e com muitos de turistas à bordo. Viaturas policiais escoltavam aquela fila interminável de veículos padronizados… qual o significado daquela cena? Depois saberíamos…

Ainda durante esse pequeno trajeto, começaram a borbulhar questionamentos em nossas mentes. Será que iríamos conseguir melhores informações na loja da Copa, no aeroporto? Ir lá foi nossa segunda providência, depois de deixarmos nossa bagagem no quarto do hotel. E tivemos um susto, ao ver aquela cena: as portas do aeroporto completamente fechadas e vários avisos pregados pelo lado de fora. Eram notas das companhias aéreas sobre cancelamentos de todos os voos internacionais, informes de que apenas raros voos nacionais ainda estavam operando (e que somente passageiros daqueles destinos poderiam entrar), e avisos do governo de que o aeroporto estaria fechado por tempo incerto, por determinação presidencial. Voltamos desolados para o hotel, e nem tivemos a chance de ser atendidos por algum representante da empresa aérea.

Aeroporto La Aurora de portas fechadas

Ver a nossa porta de saída praticamente lacrada e vigiada por militares nos gerou uma sensação ainda mais preocupante. Um inevitável “e agora?” veio à tona quase que simultaneamente em nossas bocas… tínhamos hotel reservado para três dias, passagens que não poderiam ser usadas porque não havia avião pra isso, nenhuma informação da companhia aérea… sem contar as incertezas, os medos, as dúvidas, o Museu de Arte Maia fechado, enfim… era preciso colocar nossos neurônios no lugar e planejar o que fosse melhor pra nós naquela circunstância. E uma aventura sem precedentes nos aguardava nos dias seguintes.

De volta ao hotel, seguimos à pé em direção à Embaixada do Brasil, a poucos minutos dali, pois ambos estão localizados na mesma Zona 10, a mais bacana e segura da capital, onde estão os melhores hotéis, o aeroporto, o comércio mais vibrante da cidade, parques, museus, etc. Portão da Embaixada igualmente fechado e anúncio de que só atendia ao público pela manhã. Retornamos ao hotel, pois era urgente providenciar a remarcação das passagens aéreas, pra quando fosse possível.

Mesma espera interminável ao telefone e as pessoinhas aqui descobriram que o voo pela Copa Airlines estava cancelado há um tempo… imagine! Saldo da brincadeira: bilhetes aéreos remarcados para… 1º de abril (verdade, gente!), quando supostamente o aeroporto da Cidade da Guatemala reabriria, segundo o governo havia anunciado. E torcíamos que não fosse mentira, a despeito da coincidência da data…

Nota de repúdio: a companhia aérea sequer nos notificou sobre esse cancelamento. O que seria normal em situações simples, eles não nos avisaram de nada naquela ocasião excepcional. Depois que telefonamos é que chegou um e-mail informando o problema do nosso voo…

Começamos, então, a traçar o plano emergencial pr’aqueles dias inusitados. A agenda era fazer registro na Embaixada brasileira, tentar negociar com nosso hotel uma prorrogação nas diárias (ou ir para outra hospedagem), localizar um caixa eletrônico pra sacar Quetzales (a moeda guatemalteca), comprar alguns mantimentos e anunciar aos quatro ventos o que tinha acontecido conosco – e isso incluiu a família, amigos(as) do coração, pessoal das instituições onde trabalhamos, Itamaraty, etc, etc, etc… obviamente, os nossos anjos de guarda foram os primeiros a saber de tudo (risos) e a nos ajudar, desde o primeiro dia, é claro… a gente que ficasse ligado nos sinais!… e isso, de fato, aconteceu.

Naquelas tarde e noite tensas, nossas mãos ficaram dormentes de tanto escrever dezenas de mensagens ao Brasil, de tanto preencher formulários, fazer e-mails para nossos chefes e contar o que já sabíamos até aquele momento, até mesmo para acalmar as pessoas e pedir orações. A exaustão nos derrubou, embora o sono tenha sido bem agitado, estranho… era de se esperar.

O compromisso do dia seguinte, logo cedo, era fazer registro oficial na Embaixada do Brasil na Guatemala. Não podíamos voltar ao nosso país e era preciso informar isso ao Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. E isso se faz mediante registro na Embaixada. Como era uma situação excepcional, tínhamos que pedir para ser repatriados, já que a pandemia obrigou a Guatemala a fechar as portas e isso nos obrigava a permanecer por lá por tempo indeterminado, a nosso contragosto. A possibilidade era um voo humanitário de resgate de brasileiros na América Central. Levamos documentação e um punhado de esperanças, aguardando apoio do nosso país, diante daquelas circunstâncias, coisa e tal…

Prédio aberto, acessamos e nos dirigimos a um andar superior, onde ficava o atendimento ao público. Uma senhora falante (e um tanto espalhafatosa) já estava prestando informações a um jovem casal de brazucas que viviam dilema igual ao nosso, e que seriam personagens muito importantes num momento não muito distante dali. A atendente nos cumprimentou e nos envolveu também na conversa, por ser assunto comum. Pediu pra gente tomar nota de nossos dados num pedaço sei lá de quê (parecia um “saco de pão” ou coisa que o valha), o que nos causou certa estranheza, logo de cara, sinalizando muita informalidade ou quase nenhum cuidado com a seriedade daquele momento tenso pra nós, já que estávamos ali em “solo brasileiro”. O fato é que não nos sentimos acolhidos naquele ambiente. Era outra expectativa que tínhamos com Embaixadas. Nunca precisamos nos socorrer de uma, nos nossos 17 anos de viagens ao exterior… e era sério demais o que motivava as pessoas a buscarem a Embaixada do Brasil naquelas circunstâncias. Que falta de “sorte”, a nossa… ao menos ali.

Batata! Aquelas desculpas sem pé nem cabeça, por parte da Sra. Espalhafatosa, os argumentos evasivos, os “não sabemos de nada por enquanto” e variações sobre o mesmo tema, indicavam o que foi mostrado claramente nos dias que se seguiram àquele. Ao menos na Guatemala, a Embaixada do Brasil mostrou-se um “ser” inerte, com gente desinformada, desorganizada, quase sarcástica, parecendo não ter qualquer trato diplomático, sinalizando ser um mero espelho dos mandatários-patrões, igualmente inautênticos, os tais “cidadãos de bem” que, lamentavelmente, ditam muitas regras nestes tempos, e indicam “antas” (coitadas das antas!) para ocuparem o cargo de diplomatas. Lastimável.

Houve até uma tentativa de “organizar” as coisas, por parte da Embaixada. Criaram um grupo no Whatsapp, com brasileiros(as) cujos nomes provavelmente foram escritos naquele surrado “papel de pão” (ao menos esses nomes foram informados ao Itamaraty, pelo que soubemos depois, por acaso)… somavam cerca de vinte pessoas, e foram rareando com o passar dos dias e da descoberta sobre a inutilidade daquele órgão brasileiro situado em território guatemalteco. Também pregaram na porta do prédio uma lista de pousadas e hostels localizados em diversas zonas da capital (inclusive umas bem complicadas, onde rola muito crime e prostituição… cruzes!), como mera informação de apoio, e indicaram um banco que permitia fazer câmbio. E só.

Uma cena que rolou na Embaixada, envolvendo aquele jovem casal que encontramos por lá, nos deixou boquiabertos. O rapaz voltou-se pra sua companheira e anunciou que não ficaria na Guatemala. Se ela quisesse, poderia ficar naquele país “sem graça e subdesenvolvido”, nas palavras daquela figura que parece ter faltado às aulas de adestramento num pasto brasileiro qualquer. Ficar seria escolha da moça, disse o cara. Simples assim. Ele já estava decidido a cruzar a fronteira mexicana, ir até uma cidadezinha chamada Tapachula e pegar um voo para a Cidade do México… e de lá, iria fazer umas belas selfies em Cancún, de sombrero (aquele típico chapelão colorido mexicano) e tudo mais… ela que ficasse sozinha!

Na boa, deu vontade de dar uma voadora naquele ordinário!… Que sujeito arrogante, irresponsável, egoísta, desprovido de qualquer empatia!… Só víamos isso naquela cena. Puxa!… Era injusto e perigoso aquele abandono. Deixar a namorada temporária (pelo menos achamos que era essa a relação) sozinha numa roubada daquelas, em meio a uma pandemia, sem ter como voltar pro Brasil, e sem perspectivas a curto prazo!!… Tentamos ser solidários e fraternos com a moça, nos despedimos e seguimos adiante.

Aquela cena do casal ficou gravada nas nossas mentes e depois compreendemos melhor o motivo de termos presenciado aquilo que nos pareceu tão indigno… e era. Deus escreve sempre certo, por linhas certas, mas nossas ignorância e desatenção fazem com que elas pareçam tortas – fazendo aqui uma pequena proposição de mudança ao aforismo popular –, ou nem mesmo as enxergamos. Aquela discussão de casal era um A-VI-SO pra nós; mas os pontinhos só seriam ligados dias mais tarde, quando outros elementos entrariam em cena.

A moça realmente ficou sozinha na Cidade da Guatemala… por muitos dias. Foi até despejada de um hostel, que estava fechando as portas e ela precisou se hospedar num outro, mais próximo de onde estávamos. Ela fez contato com a Embaixada, pegou nosso número de telefone e nos contou tudo. O energúmeno do ex-companheiro conseguiu passar pela fronteira com o México e até mandou vídeo e fotos pra ela… a impressão era de zombaria da parte dele, como que dizendo: “sua otária, não veio porque não quis”.

Voltamos ao hotel, num misto de indignação e apreensão. Antes, porém, resolvemos o problema do dinheiro num caixa eletrônico dentro e um shopping fechado e fortemente vigiado, onde só funcionavam os tótens dos bancos. Abençoado seja quem inventou o cartão de débito/crédito! Estávamos com pouquíssimos dólares e os cartões nos socorreram. Dali fomos abastecer nossa despensa, num supermercado próximo.

Aquela primeira hospedagem na Cidade da Guatemala era bem localizada, mas suas condições não nos permitiriam ficar lá muito tempo, ainda que a gerência fosse generosa, pois, mesmo com a pequena cozinha que havia no quarto, ela era limitada demais e ficaria tudo impregnado de cheiro de comida… imagine-se isso por dias ou semanas!?… e pagaríamos uma pequena fortuna pela estada até o “dia da mentira” (risos), quando supostamente pegaríamos nosso voo.

Gardênia, como exímia pesquisadora de coisas de viagem na Internet, localizou no Booking uma hospedagem pertinho dali, na mesma Zona 10. O lugar nos atraiu de imediato e fizemos a reserva. Antecipamos em um dia a saída do hotel onde estávamos, resgatamos os dólares da diária cancelada e aguardamos a mudança na manhã seguinte.

Naquela mesma noite, era momento de anunciar às pessoas no Brasil o que tinha acontecido conosco, pois já havia uma boa quantidade de detalhes. Ao falar com os familiares, o máximo cuidado, especialmente pra não assustar nossas mães já idosas. Mas elas compreenderam bem e até nos confortaram… lições que as pessoas mais experientes têm a nos ofertar. Calma e confiança, que tudo ficará bem em breve…

Também notificamos nossos chefes e começamos a preencher os benditos formulários – do Itamaraty, da ANAC, da companhia aérea, das instituições onde trabalhamos, etc. –, horas e horas pra dizer qual a nossa situação fora do Brasil, em meio à pandemia, e nosso pedido formal de socorro pra voltarmos pra casa, pois estávamos fora de nossa pátria. Fizemos contato com algumas pessoas queridas que poderiam nos ajudar, o que ampliava nossas esperanças pra uma solução em breve. E só nos restava monitorar e esperar.

Na manhã seguinte, chegou o carro no hotel pra nos pegar. Era o Sr. Guillermo, o sorridente e amistoso proprietário da Casa Mesa, nossa nova hospedagem e onde ficaríamos até o último dia na Guatemala. Ficava localizada num condomínio fechado de casas, ao lado do qual há um parque muito arborizado, mas que estava fechado naqueles dias, por determinação do governo, visando evitar aglomeração de pessoas e possível contágio pelo “corongão”.

Nossos simpáticos anfitriões: Sr. Guillermo e D.Lucía

Aqui, parênteses importantes. De cara, ficamos encantados com a recepção daquele simpático casal de idosos aposentados: Sr. Gillermo e D. Lucía foram, quase que literalmente, anjos de guarda para nós, naqueles dias aperreados. Eles tinham uma energia paternal/maternal diferente, um ar acolhedor no rosto. Fomos “abraçados” de um modo muito especial, com vários cuidados e palavras de incentivo, tudo regado a uma ternura incrível, sorrisos, distinção e respeito, como se fôssemos filho e filha. Sim, ganhamos pai e mãe postiços, ainda que por uns dias. Eles falaram sobre suas histórias, suas viagens e sobre a dupla de filhos biológicos – o rapaz, funcionário da Embaixada dos Estados Unidos na Guatemala e, a moça, uma atleta profissional que encontrava-se com a saúde em recuperação após um acidente, pelo que entendemos. Nossos anfitriões traziam também várias notícias sobre a situação da pandemia no país. ¡Muchas gracias, D. Lucía y Sr. Gillermo! Com frequência nos comunicamos, tamanho o laço fraterno que nos uniu naquela ocasião.

D. Lucía, com sua paixão pelos livros, ofertou-nos alguns deles para preencher as horas com qualidade… e, empolgada, nos relatava algumas histórias de seu país, sua devoção espiritual, cuidados com a família, o que nos parecia muito autêntico e sincero… aquilo era nítido afeto e nos repletava demais. Amamos a sua eloquência, ainda que o espanhol dificultasse um pouco a compreensão de tudo. E ela se esforçava pra moderar o ritmo da fala, pra facilitar o entendimento. Não temos dúvidas de que Maria Cristo nos reservou aquele lar pra nos receber. E agradeceremos eternamente por esse cuidado, tanto d’Ela, quanto daquele casal querido.

A Casa Mesa nos abrigou por um tempo e foi o endereço provisório melhor possível naqueles dias. Dos cinco quartos disponíveis, dois estavam ocupados – um por nós dois e outro por uma nigeriana que aparentava uns 40 anos, era funcionária da ONU e vivia a mesma peleja de não poder voltar pra casa… seu esposo e filhos estavam em Genebra, à espera de seu retorno. Ela não foi lá muito simpática conosco, pois ficava todo o tempo trancada em seu quarto. Era uma pessoa reservada e de raras palavras, e nós até tentamos nos comunicar… ela entendia tudo, mas só se dirigia a nós pra pedir alguma coisa que a interessava. Estranhamente, tinha um comportamento esquisito no uso das coisas na cozinha, mas resolvemos deixar pra lá… Era raro nos encontrar com ela na área comum da hospedagem – uma sala gigante e uma cozinha contígua -, onde passamos boa parte dos nossos dias.

Ali era local de leitura, de ouvir os pássaros, de pegar um solzinho pela manhã, de fazer uns alongamentos, de fazer refeições e orações, de conversar com D.Lucía e Sr. Guillermo, de acompanhar os aplausos vindos dos prédios vizinhos sempre às 17 horas, em homenagem aos profissionais de saúde e após a execução do hino da Guatemala que algum patriota ali perto fazia ecoar em alto e bom som… curioso… e lá estava a gente aplaudindo também.

Conseguimos até caminhar um pouco pela redondeza, dentro do condomínio, pra esticar as pernas e pegar um sol. Uma pena aquele parque estar com portão fechado. Saídas, somente para ir ao supermercado pra abastecer a despensa. Àquela altura, o país atendia ao toque de recolher das 04 da tarde às 04 da matina, polícia nas ruas tangendo os teimosos pra casa, obrigatoriedade no uso de máscaras em locais fechados, anúncios por toda parte para manter a população em casa e medidas que tais. Que cenário louco!

Enquanto isso, nenhuma novidade verde-amarela. Itamaraty inerte, as mesmas evasivas e silêncio às nossas perguntas, o que era de se esperar, diante do que já se conhecia desse [des]governo aí, de passagem pelo Cerrado brasileiro (e que passe logo)… uma vergonha!… A gente questionava pra marcar presença, dizer que ainda estávamos precisando de apoio, que havia brasileiros em situação difícil na Guatemala, distantes da capital, com pouca grana e sendo despejados das hospedagens… foi divulgada a criação de um tal “gabinete de crise” no Itamaraty, pra cuidar do resgate de brasileiros naquela região (países da América Central e Caribe)… todavia, uma semana depois e nenhuma notícia sobre voo de repatriação. O fato é que todas as nossas tentativas de contato com eles foram malogradas… nenhuma perspectiva. Só “recomendavam” (e nem queríamos imaginar a cara de desdém daqueles figurões), parecendo aquele tipo de mensagem-padrão de empresas de telemarketing: “fiquem em seu hotel e aguardem, pois estamos providenciando as coisas”. A embaixadora adorava dizer isso por meio daquele famigerado grupo de Whatsapp. Nós dois até tínhamos condições de ficar mais tempo na Guatemala… mas… e as demais pessoas? Aquilo dava nos nervos…

Enquanto caía a areia da parte superior para a inferior da ampulheta, beeeeem devagar, a gente tomava todo o cuidado com a saúde, física e mental. Adoecer ali seria muito perigoso demais… talvez, mortal. Os hospitais estavam em alerta máximo, e cada paciente era tratado como se fosse um alienígena, prestes a contaminar tudo… imagine um estrangeiro cair doente naquelas circunstâncias? A Guatemala é um país pobre e o pouco que dispõe é pra ofertar aos seus habitantes… não sei se teríamos chances, no caso de termos contraído o “corongão”, desenvolvido a COVID-19 e sermos jogados num daqueles hospitais… Deus nos livre! Diante disso, tomamos todas as cautelas pra nos manter saudáveis e distanciados das pessoas, como a ciência recomenda. Confiança, respeito e fé. E vamos simbora!…

Foram dias de preces sentidas, de choros, de receber e responder a centenas de mensagens de apoio de nossos(as) amigos(as), familiares, colegas e irmãos(ãs) em ideal, a cada notícia que dávamos. Tempos de sentir a fraternidade das pessoas queridas, que movimentavam seus contatos no intuito de que uma alma bondosa pudesse nos ajudar de fato. E não economizamos nos pedidos. Desavergonhadamente e confiantes, disparamos muitas mensagens ao Brasil… a cada resposta, esperança. A cada bip de notificação, poderia conter uma solução. A cada palavra lida com os olhos do coração, lágrimas brotavam sem pedir licença… nunca tínhamos recebido tanto afago dos amores que deixamos no Brasil… alguns em outros países. Uma pessoa, em especial, nos acendeu de vez a vontade de tomar uma providência mais enérgica… já, já revelamos quem foi.

A cada página virada no calendário, crescia em nós um misto de esperança e desconforto, de gratidão pelas boas condições que nos abrigavam e também de incertezas. Era comum ouvir o ruído trovejante de aviões de grande porte, nos céus da cidade. Aquele som emoldurava muitas suposições. “Quando será que iremos receber o e-mail indicando a data de nosso voo?” – pergunta diária, ainda que silenciosa.

Certo dia, ao ouvir aquele barulhão do céu, veio à mente a lembrança daquele comboio de micro-ônibus cor bege, lotados de turistas e bagagens, que vimos na estrada, enquanto nos deslocávamos de Antigua para a capital… lembram-se? Eram os países sérios preocupados com seus compatriotas, negociando com o Governo da Guatemala pra reunir as pessoas que estavam em vários locais do país, e a entrada de voos humanitários para resgate dessas pessoas… cadê o Brasil e seus diplomatas de araque? Soubemos de milhares de alemães, americanos, costarriquenhos, europeus voltando pra casa naquelas aves metálicas que cantavam pra nós diariamente… e cadê o Brasil, minha gente?… Ali sentimos um misto de raiva e vergonha… é lúcido reconhecer isso.

Recordam-se do tal grupo de Whatsapp da Embaixada? Gente, nenhuma boa notícia era colocada naquele local, o que era bem sintomático. Dias a fio com apenas as mesmas evasivas, baboseiras de que o Itamaraty estava tentando fazer o que podia, blá, blá, blá… Até videozinho de dancinha sem graça a própria embaixadora postou, com o argumento de que era pra divertir um pouquinho (a impressão é que ela nos chamava o tempo todo de otários… só podia). Tinha gente que “surtava” e pedia respeito por parte da embaixadora, que tratasse a situação com seriedade, prestasse informações úteis e postasse menos besteirol. Bem feito! Merecia ouvir mais.

Entretanto, aquele grupo cumpriu seu papel, no concerto das coisas. Umas postagens começaram a nos chamar atenção e serviam como estímulo, ainda que inconscientemente: as pessoas anunciavam a saída do grupo e diziam que foi muito tranquila a travessia pela fronteira; outras só faziam isso quando chegavam ao Brasil, desejando boa sorte a quem permanecia ilhado na Guatemala… fizemos contato, em privado, com alguns participantes e uma onda de motivações foram ganhando corpo.

Em especial, ficaram mais e mais frequentes os contatos com aquela amiga (possivelmente ex-namorada) do rapaz estúpido que conhecemos na Embaixada, pessoas que protagonizaram aquela cena desagradável que descrevemos há pouco. A moça nos disse que também faria o mesmo trajeto via fronteira terrestre Guatemala-México, mas acompanhada de mais dois brasileiros. Mandou pra gente, inclusive, as benditas fotos e vídeos que o amigo “porra-louca” enviou pra ela, dias antes.

Ahaaa!! Agora fez sentido a gente ter presenciado a cena do casal na Embaixada! A solução para certos problemas chega dos modos mais inusitados… Deus não erra! A gente é que precisa estar atento, observar bem, abrir o coração, sentir o fluxo da vida. O cara que foi inconsequente (e nem um pouco empático com a companheira de viagem) era um dos porta-vozes da fala salvadora do Céu para nós… pois é… inimaginável, não é mesmo? Abramos os nossos olhos!…

Assim que desembarcou em São Paulo, a moça escreveu pra nos contar que a travessia pela fronteira foi tranquila e também pra nos informar o contato do motorista que a conduziu até lá. Outros pequenos grupos fizeram mesmo. Ficávamos felizes a cada vitória, e cada mensagem representava alívio, pois mais pessoas estavam chegando em casa sãs e salvas.

No entanto, ainda havia um desconforto no ar… a impressão é de que estávamos fugindo a um compromisso cármico, que era necessário exercitar resiliência, saber esperar, compreender o momento e aceitar os acontecimentos sem espernear, vez que aquilo teria um fim… estávamos com saúde, seguros, com grana na conta pra ficar um bom tempo… mas, até quando? Reconhecemo-nos fazendo parte daquele grupo de pessoas que não se conformam facilmente com inércia, com mesmices… somos gente de ação. Sabemos que há anjos de guarda, que somos acompanhados pela Espiritualidade do Bem, especialmente quando buscamos estar em sintonia propícia… porém, Seres assim têm agenda cheia! Eles nos inspiram, mas nos respeitam. Livre-arbítrio é algo inviolável… e Eles/Elas levam isso a sério de verdade.

Aquele conjunto de acontecimentos (incertezas + ruídos das aeronaves + inércia governamental + sucesso dos brasileiros via fronteira + rotina incômoda + desconforto no coração + vontade de voltar) parece que nos acendeu a chama para buscarmos uma solução urgente… e uma energia inconsciente, embora com feição resolutiva, foi nos tomando aos poucos. Como que inspirados pelos nossos Mentores Espirituais, começamos a enxergar outras possibilidades, ainda que com olhos meio desconfiados e receosos… as pesquisas por voos mexicanos passaram a fazer parte da nossa rotina. Vieram notícias de que o México ainda estava com fronteiras e aeroportos abertos (elas nunca foram fechadas…), diferentemente da Guatemala… aquilo representava uma porta escancarada, uma feliz possibilidade, diante de nossos olhos?

Pessoas queridas (em todos os níveis: familiares, amigos, colegas de trabalho, irmãos/ãs em ideal espiritual) e até desconhecidos nos ajudaram muito. Estímulos e carinho não nos faltaram e somos muito, muito gratos por todos aqueles gestos humanos, próprios de corações generosos e fraternos. É maravilhoso saber que estamos envoltos por gente que nos ama, nos respeita e torce por nós. Fizemos vários contatos pra pedir socorro e vimos uma mobilização sem precedentes em nossas vidas até ali, o que nos arrancava lágrimas, aumentava nossa saudade/gratidão e nos confortava os espíritos. Presenciamos uma verdadeira caça ao tesouro, só que todas as pessoas com o mesmo objetivo… não havia competição, mas a luta por descobrir pedras preciosas (um contato ou uma informação) que pudesse influenciar e nos auxiliar de alguma forma.

Chegou o dia “D”. Dia da doideira, do desconforto geral, da dor de cabeça que não diminuía, da dormida ruim, dos dilemas desconcertantes, de decodificar aquele mal-estar, das dúvidas, da diarreia (rolou até isso… rsrs), do quase desespero, da desconfiança com alguns movimentos na hospedagem (pareciam as despedidas da funcionária da ONU na cozinha da Casa Mesa)… no entanto, também foi o dia “D” da dádiva, de dimensionar as possibilidades de atravessar a fronteira pelo México, de desenvolver uma estratégia real, de despachar pra bem longe os demônios da dúvida limitante, de demandar uma opinião fundamental a nosso Professor de Espiritualidade Benjamin Teixeira de Aguiar e, praticamente, dali por diante, decidir voltar pra casa.

Gardênia estava especialmente enigmática, triste e quase inconsolável. Olhos marejados, rosto vermelho de choro insistente. Partiu dela (claro, as mulheres sempre mais intuídas!) revelar aquele pacote de sentimentos e impressões que fomos obrigados a reconhecer e desdobrar. Ela foi nitidamente influenciada pelo seu Anjo de Guarda, que aproveitou um momento de aperreio pra injetar ânimo e me afetar também, por tabela, embora eu já tivesse sendo “conduzido” a pesquisar algumas coisas na Internet, dias antes, até mesmo ocultamente, com olhos atentos e esperanças voltadas para as passagens aéreas México-Brasil. A escrita de Deus, pelas linhas certas, mais uma vez…

Aquela quinta-feira 27 de março foi prenúncio de uma sexta-feira pra lá de movimentada. Após uma noite de sono cortado, como se um rolo compressor de toneladas tivesse passado por cima de nossos ossos, uma expectativa pairava no ar… e ela se concretizou, pra reforçar nossas impressões do dia anterior. Por volta das 08h47, fuso da Guatemala, chegou um áudio de nosso querido amigo Benjamin, com conselhos bem energizantes (rsrs) e quase sem argumento contrário, mas com muito respeito ao nosso livre-arbítrio, o que é próprio de alguém sintonizado com a Faixa da Sabedoria… e sabemos que ele é uma dessas pessoas. Como se diz à boca miúda, foi a “pá de cal” pra por fim a qualquer receio nosso. Enfim, a nossa decisão final estava tomada: Brasil, aí vamos nós!

Ficamos e somos muito, muito agradecidos a Benjamin pela intervenção precisa e preciosa, por nos aconselhar a voltar logo pra casa, usando os recursos que estavam ao nosso alcance. Estávamos diante de um presente do Céu. Meu Deus, como não reconhecer e não agradecer?!… Não temos dimensão exata do significado daquela interação, mas, reconhecemos como um salvamento.

Dali por diante, com toda a carga de apoio de Benjamin somada ao que intuímos naquela semana, sobretudo no dia anterior, abriu-se um portal mágico em nosso imaginário. Era preciso correr contra o tempo. Sim, o México oferecia melhores condições de estada, por ser um país mais desenvolvido, e as fronteiras e aeroportos ainda estarem abertos. Todavia, as notícias filtradas nos sites das companhias aéreas eram de que os voos México-Brasil estavam na iminência de ser suspensos dali a alguns poucos dias. A perspectiva era quase desesperadora… ao entrar nos sites dos aeroportos, o painel mostrava mais voos cancelados que confirmados. Tensão no ar. E quem disse que seria fácil? Era 27 de março… e a LATAM só dispunha de bilhetes até dia 02 de abril.

O que nos aguardava naquela sexta-feira? Orar muito pra dar tempo de fazer tudo, ou seja: comprar 03 passagens aéreas, acertar com o motorista pra nos levar à fronteira terrestre (torcendo pra que o cara estivesse disponível), reservar hotel na Cidade do México, arrumar a bagagem, manter contato com a Embaixada brasileira no México, comunicar a algumas pessoas, despedirmo-nos dos nossos anfitriões (Sr. Guillermo e D. Lucía), afora as rotinas domésticas e as disciplinas espirituais diárias (o respirar de nossas almas)… e segurar a ansiedade (a pedreira da lista)… ufa!!

Uma urgência era comprar as passagens Cidade do México – São Paulo. Para isso, levamos cinco (isso mesmo: cinco) horas!! Nossas tentativas foram frustradas, pois o site da LATAM apresentou algum problema no fechamento da compra… depois de quatro tentativas mal sucedidas, o sistema bloqueou nossos cartões de crédito, mas as reservas estavam lá, abertas, aguardando pagamento. E agora? Acionamos familiares e amigos no Brasil, para tentar fechar essa conta. Nossa! Quanta paciência dessas pessoas, as quais pedimos licença para nominar, porque merecem nosso carinho, e a quem agradecemos pelo resto da vida. Anjos de Guarda existem, amigos(as)!! E estão aqui entre nós! Imensa gratidão a Orlando Gentil, Marcelo Farjalla, Fabiana Oliva, Darcy Santos e Fabiano Santos, em especial, que nos emprestaram seu tempo, cartões de crédito, dicas, afeto, etc.

Finalmente, após a participação especialíssima de Marcelo, um agente de viagem de Aracaju, amigo de Orlando Gentil, nossos bilhetes México-Brasil e o interno, Sampa-Aracaju, estavam emitidos e pagos. Conseguimos também fechar os tickets do trecho interno no México, de Tapachula à capital, Cidade do México. A conta foi alta, mas esse foi o menor problema a considerar. Usamos cartão de crédito de um amigo querido e a atenção quase paternal de Marcelo, uma pessoa de coração generoso e de um profissionalismo admirável (ao final deste artigo, iremos divulgar o contato dele, pois o recomendamos, caso necessitem de ajuda em suas viagens). Obrigado, Marcelo! Ele acompanhou passo a passo as notícias da LATAM, para o caso de haver cancelamento de voos e precisar adotar alguma providência.

Outra urgência: agendar nosso transporte para a fronteira Guatemala-México, sem o qual aquele corre-corre não faria sentido. Entrou em cena outra pessoa importante: César. Ele nos atendeu com muita simpatia, por telefone. O rapaz foi o mesmo que levou para a fronteira (junto com outros brasileiros) aquela moça do episódio na Embaixada… a rede do Bem que funciona, quando estamos abertos e surgem as necessidades. Tudo acertado para ele nos pegar na madrugada do dia seguinte, às quatro da matina, atendendo à determinação do governo do toque de recolher… até aquele horário, ninguém podia ficar nas ruas, e a polícia estava cumprindo seu papel.

Encaminhada a parte delicada dos bilhetes e do transporte, partimos pra etapa da preparação daquela viagem tensa, que levaria, pela nossa vontade, apenas três dias até o desembarque em Aracaju. Uns dias antes, tínhamos a informação de que a fronteira da Guatemala com o México estava tensa, com apedrejamento a veículos que levavam estrangeiros pra lá… e nossa travessia seria por ali. No entanto, achamos aquilo esquisito, especialmente porque era notícia trazida pela Embaixada brasileira na Guatemala, que estava com a credibilidade no “subterrâneo pantanoso”, àquela altura. Achamos melhor checar a informação em fonte segura, mas não encontramos notícias na imprensa local. A saída era esperar pra conversar com o motorista e saber a opinião dele sobre o melhor destino para a travessia, se por Tecún Umán (mais perto do aeroporto de Tapachula, onde pegaríamos nosso primeiro voo) ou por El Carmen, onde parecia estar mais tranquilo.

A exaustão mental já batia à nossa porta, quase meio da tarde, mas as malas ainda estavam por fazer. Socorro!… Eis que chegaram D.Lucía e Sr.Guillermo, para a limpeza diária do quarto, enquanto rolava uma conversa sempre agradável e aconchegante. Eles não sabiam uma vírgula do que estava acontecendo conosco, nem sobre nossa decisão de partir no dia seguinte. Contamos tudo, sob os olhares atentos e sorrisos nos lábios que denunciavam uma torcida velada, pra que tudo corresse bem conosco. Nossos amigos ficaram felizes, embora preocupados com o trajeto. Sabiam que nossa aventura, a partir do dia seguinte, seria uma chance real de voltarmos pra casa.

Aquela conversa demorada, com sabor de despedida e com tantos desejos de sucesso e felicidade, acendeu ainda mais a nosso carinho e respeito por aquele casal, que nos abraçou e protegeu, desde nossa chegada até o último contato. Por conta dos cuidados com o sacana do vírus que nos rondava, trocamos olhares afetuosos, sorrisos e agradecemos por tudo. Foi um momento fraterno, uma espécie de coroamento, após a pressão com as providências da viagem. O abraço deles, com o olhar, foi nossa última recordação mais marcante da Guatemala. Que Deus os abençoe!

Dali então, e após reserva do hotel na Cidade do México e meticulosa arrumação das bagagens, fomos fazer as comunicações necessárias a alguns familiares e amigos, até mesmo por questões de segurança. Se acontecesse algo ruim conosco no trajeto, as pessoas teriam que estar avisadas para adotar providências de resgate, por exemplo. Comunicamos à Embaixada brasileira no México. Cada passo dado seria anunciado a essas pessoas estratégicas, o que em tempos de Internet, foi fácil e rápido.

Hora de dormir… e a ansiedade deixava?… A mente estava acelerada com a intensidade dos fatos daquelas poucas horas anteriores. O pensamento estava focado em check list da bagagem, em programar alarmes para despertar na madrugada, na expectativa com confirmação dos voos, chegada do motorista, pedidos de ajuda Divina e coisas que tais. Se dormimos, foi por pouquíssimo tempo… acho que nossos Anjos Guardiães tiveram um trabalho arretado naquela noite/madrugada.

No horário combinado, César chegou. Nossos anfitriões dormiam. Tava tudo escuro ainda, quando um sedan apareceu na esquina, estacionou em frente à Casa Mesa e dele saiu um jovem e simpático rapaz, falante e prestativo, que nos ajudava calmamente com as malas, enquanto o portão da hospedagem era fechado. Naquele momento, a impressão era de que nosso trajeto começava com o pé direito. Um ar de tranquilidade nos atingiu em cheio no peito. Sentimos segurança e boa expectativa, o que foi confirmado nos quase 300 Km que nos separavam da fronteira, cinco horas à frente.

Saindo devagarinho pela cidade ainda escura e vazia, o colombiano César contou-nos um pouco de sua curta história de vida, mas que daria pra rodar um filme, de tantas experiências e perrengues vividos nos seus vinte e poucos anos. Era inacreditável ouvir aquela autobiografia, que rendeu admiração por aquele moço tão sofrido e batalhador. A mais recente parte de sua trajetória foi a briga contra um câncer no cérebro, que o levou à mesa de cirurgia, e à beira da morte, várias vezes, fazendo-o perder mais de 12 Kg em poucos meses.

César falava cinco idiomas. No seu país de origem graduou-se como Analista de Sistemas, indo morar na Argentina, onde fez sua pós-graduação em Marketing Digital. Ainda residiu nos Estados Unidos, Espanha e no Brasil (em Recife), fato que lhe rendeu um “portunhol” bacana, o qual utilizava pra brincar com os brazucas que conhecia. Morava na Holanda com a namorada guatemalteca, até que decidiu ganhar a vida em navios de cruzeiro, com ideia de juntar uma grana que permitisse ao casal abrir um hostel na Guatemala…. tudo isso aos 25 anos (!!) O transatlântico em que ele trabalhava estava ancorado por lá, quando chegou a pandemia do “corongão”. Daí ele imediatamente comprou um carro (o tal sedan) pra levar estrangeiros para a fronteira… e o destino fez esse cara cruzar nosso caminho. A rede do Bem, amigos!…

O amanhecer no trajeto até a fronteira

A viagem foi bem tranquila, apesar da sinuosidade das estradas na Guatemala. Lembrava uma corrida de kart, a cada curva. O coração insistia em visitar a boca, o que se acentuava pelo fato de que nosso motorista não parecia assim tão… digamos… experiente na direção. Acho que o barato dele era mesmo com informática, marketing, idiomas, enfim… Mas isso durou pouco tempo, à medida que nos distanciamos da capital e das montanhas. O sol surgiu forte, após três horas de trajeto… com ele, um calor quase insuportável, pois o carro não tinha ar condicionado. Falamos a César sobre os rumores da fronteira via Tecún Umán, mas ele mais uma vez nos tranquilizou, pois tinha conduzido estrangeiros para lá durante toda a semana e não viu qualquer problema. Excelente notícia!

Na estrada, os efeitos da pandemia já estavam sendo vistos, com pessoas se acostumando com uso de máscaras (embora outras não), estabelecimentos fechados, anúncios sobre cuidados sanitários em cada cidadezinha que cruzávamos. Porém, tudo relativamente tranquilo, até porque a Guatemala estava com raros casos da doença e os números sobre contaminação eram reduzidos. Mesmo assim, os cuidados determinados pelo Presidente, que também era médico, estavam sendo observados pela população.

Pouco a pouco, as placas de sinalização anunciavam a proximidade da fronteira com o México. Chegamos à cidade de Tecún Umán antes das nove da manhã, com tempo suficiente para trocar uns quetzales por pesos mexicanos… precisaríamos deles nas próximas horas. Estava tudo tranquilo na cidade, contrariamente ao que as criaturas desinformadas da Embaixada diziam dias antes. César nos deixou em frente ao portão da imigração da Guatemala, a tempo de nos despedir, fazermos uma fotografia que registrava seu sorriso bem humorado, e agradecer ao nosso parceiro de estrada por nos ter conduzido até ali, em paz.

O jovem César, o motorista que nos conduziu até a fronteira

Começamos a arrastar nossas malas e mochilas, portão adentro, após nos identificar como estrangeiros, até a sala de atendimento. Tudo carimbado nos passaportes, termômetro na testa pra aferir temperatura, lá fomos nós em direção ao lado mexicano, ao longo da ponte sobre o Rio Suchiate… e parecia levar uma eternidade pra ser atravessada, devido ao calor (nível cratera de vulcão) que ardia naquele lugar, capaz de fazer qualquer calango pedir arrego. A sorte foi uma cobertura à margem da ponte (um tipo de passarela) para os pedestres não correrem o risco de derreter. O trajeto é feito a pé ou de táxi-bicicleta… depois detalhamos o que é esse meio de transporte. Fomos caminhando, mesmo.

Travessia pela fronteira Guatemala-México

São cerca de 200 m desde a imigração guatemalteca até a mexicana, que fica num lugarejo chamado Ciudad Hidalgo. Via-se uma verdadeira procissão de barcaças – abarrotadas de tranqueiras – e pessoas atravessando o Rio Suchiate, lá embaixo, em ambos os lados da ponte e de um país para o outro… deve ser quase impossível fiscalizar o que passa por ali. Acho que quem se meter a fazer isso, na boa, estará com reserva garantida num cemitério próximo, sete palmos abaixo. Todavia, quem passa por cima da ponte tem que se submeter ao preenchimento de formulários, desconfiança e caras feias dos agentes da imigração, contar com a boa vontade dos caras (além de uma boa dose de sorte), verificação de bagagens em raio-x e lá vai…

Pois é… tava tudo certo com nossa documentação, mas, o agente da imigração mexicana nos exigiu os bilhetes impressos das passagens aéreas… isso mesmo: impressos… em papel! Putz!… Pareceu brincadeira. Sempre andamos com tudo impresso, por segurança… mas aquelas circunstâncias não nos permitiram lembrar de procurar imprimir os benditos tickets aéreos, emitidos no dia anterior. Mostramos os prints das confirmações no smartphone, mas não adiantou. O cara argumentou, com má vontade estampada na cara, que teve problemas anteriormente, blá, blá, bla… achamos aquilo muito arbitrário e estranho, cheirando à tentativa de extorsão futura, mas, no momento da exigência descabida, tomamos mesmo foi um grande susto. Ele até sugeriu, de modo quase sarcástico, que a gente voltasse à Guatemala pra fazer os impressos em Tecún Umán. Ocorre que era um sábado à tarde, comércio fechado por lá e, o principal, já tínhamos saído oficialmente da Guatemala, sem podermos voltar, porque o país estava com fronteiras fechadas para entrada… somente era permitido sair. E o sacana do agente sabia disso. Então perguntamos: e agora? Era preciso pensar e agir rápido, pois eram quase 10 horas da manhã e nosso voo estava marcado pra sair às 13h30, a 45 Km dali.

A solução foi pedir ao agente que fôssemos a Ciudad Hidalgo, a cidadezinha que fica colada à fronteira, onde está localizada a aduana e o posto da imigração mexicana. O cara consentiu, sabe-se lá por quê!… Deve ter sido alguma intervenção de Cima. Lá fomos nós arrastando as malas, putos da vida com aquele policial. No entanto, com esperança de achar uma alma generosa que nos deixasse imprimir os papéis, caso não houvesse uma lan house aberta naquela tarde. De nada adiantava reclamar. Tínhamos que conseguir os tais bilhetes impressos.

Na saída da imigração, um jovem nos abordou pra oferecer transporte pra cidade, ao que aceitamos. Explicamos a situação, preço previamente acertado e pedimos pra ele nos levar a uma lan house. O lugarejo estava movimentado, com muita gente nas ruas, o que nos animou, apesar da tensão que estávamos experimentando. Lá estávamos nós, andando ilegalmente no México, compartilhando espaço com malas e mochilas, à bordo de um tipo de bicicleta colorida (parece um tuc tuc) que tem à frente dois assentos e uma cobertura pra os(as) passageiros(as) não morrerem derretidos(as) ao sol e um pequeno espaço pra acomodar umas coisas abaixo de nossas pernas… apertadinhos, fomos arrastados rua pra lá, avenida pra cá. Parecia cena de filme épico… só faltou a trilha sonora. Uma pena a gente não ter fotografado aquilo… compreensível, pela situação, pelo nervosismo, o tempo correndo. Enfim, o rapaz achou a lan house, imprimimos tudo e voltamos, uns 30 minutos depois.

Lição aprendida (levar sempre impressos todos os vouchers, bilhetes de passagem, até o histórico escolar se necessário!!…). Passaportes carimbados, ¡bienvenidos a Mexico! A próxima etapa era negociar e pegar um táxi até o aeroporto de Tapachula, a 45 Km da imigração. O taxista queria nos cobrar 700 pesos pra fazer o traslado, cerca de 20 dólares. Sabendo que os caras metem a faca no bucho dos turistas sem dó, negociamos a corrida por 400 pesos e pegamos estrada naquele carro antigão, empoeirado e sem ar condicionado. A rodovia era praticamente um retão com bananeiras de ambos os lados e um calor de torrar o juízo.

Aeroporto de Tapachula, México

Finalmente, chegamos ao aeroporto, pouco depois das 11 horas, com a feliz notícia de que nosso voo para a Cidade do México estava CONFIRMADO. Ufa!… Sabe aquela descarga de tensão, a tal sensação de alívio?… Em Tapachula, esses sentimentos bateram mais forte. Fizemos nossa refeição mais relaxados, com os semblantes mais tranquilos e bem humorados. O aeroporto é uma fofura, muito organizado, bonito, funcional e estalando de novo… é inacreditável uma estrutura daquela estar cravada num lugar que parece inóspito de tão seco e quente que é. As praias disputadas do lado do Pacífico, pertinho dali, certamente tiveram influência na sua construção e o alimentam. E nós as enxergamos de cima, ao avião levantar voo… uma paisagem linda, emoldurada pelo céu azul.

… e chegando à Cidade do México

Chegamos à Cidade do México, termômetro na testa (nem vou mais mencionar, mas foram umas oito ou dez aferições, desde a fronteira da Guatemala até Aracaju) e debaixo de uma inquietante expectativa. Planejamos ir direto ao balcão da LATAM, a fim de verificar se nosso voo, programado pro dia seguinte, estava normal até aquele momento. Os dedos entrelaçados em figa, enquanto andávamos pelos corredores intermináveis do aeroporto internacional, na torcida por ouvir da empresa que estava tudo bem, o que soaria como música aos nossos ouvidos. Mas não havia uma viv’alma nem no check in, nem no escritório da LATAM ali próximo. Deixamos isso pro dia seguinte, mas iríamos acompanhar de perto o site da companhia e as notícias no nosso amigo Marcelo (o agente de viagem que comprou nossos bilhetes aéreos), que estava ligadaço pra nos informar se houvesse qualquer mudança.

Na verdade, estávamos com um plano B, caso a LATAM falhasse: comprar outra passagem pela AeroMexico, que ainda operava para o Brasil. A companhia brasileira, pelo que acompanhamos no site de vendas de passagens, só iria operar mais uns poucos dias, porém os cancelamentos eram constantes. Praticamente, só havia uns dois voos por semana saindo da capital mexicana para São Paulo. Mas o plano B era possível, Marcelo estava ciente disso e à espera de nossa autorização, caso fosse necessário. Era preciso apertar as orações, tentar relaxar a passarinha e aguardar o domingo chegar.

Após umas atrapalhações, na tentativa de localizar o ponto do aeroporto onde estaria o transporte que nos levaria até o hotel, finalmente encontramos. O corredor do aeroporto da Cidade do México poderia muito bem fazer parte do circuito de Fórmula 1, como retão principal. O hotel era ao lado do aeroporto, mas na ooooooutra ponta da “reta dos boxes”, e levaria um tempão pra chegar, arrastando devagarinho as bagagens que, àquela altura, mesmo com rodinhas, já precisavam de um guincho pra rebocar.

Corredor interminável no Aeroporto da Cidade do México (“reta dos boxes”)

Precisávamos daquele pit stop. Das 3 da matina, quando despertamos, após uma noite/madrugada quase insones, já estávamos exaustos, há muitas horas sob tensão, como se todos os acontecimentos da viagem tivessem que ser vividos num só dia, com quase 350 Km por via terrestre, travessia de fronteira, risco de não conseguir entrar no México, aventura de bicicleta pelas ruas de um lugar desconhecido, mais um deslocamento aéreo por quase duas horas, expectativa quanto ao voo pro Brasil, aperreio no aeroporto, cansaço batendo no lombo… num cenário assim, não seria luxo querer um banho quente, colocar os corpinhos quase cinquentões pra repousarem na horizontal, fazer uma refeição com calma, agradecer em prece, contar as novidades a nossos entes queridos, dormir como se não houvesse amanhã… parecia merecido, e conseguimos fazer isso, já que nosso próximo compromisso era no final da tarde do dia seguinte.

Ao meio dia do domingo, tomamos a van, que nos deixou no mesma entrada onde nos pegou no dia anterior. Nossos corações gelaram, quando chegamos ao check in da companhia aérea e vimos uma folha de papel pregada num tóten, com o aviso de que a LATAM teve que suspender suas operações por decorrência da pandemia e por outras questões governamentais. Vixi!… Procuramos imediatamente o escritório da empresa e havia funcionários por lá, com a boa notícia de que o voo para São Paulo estava previsto para 17 horas, sem alterações até aquele momento. No entanto, sabíamos que o cenário poderia ser modificado a qualquer momento, diante das circunstâncias mundiais. A cabeça borbulhava, com impermanência dos acontecimentos. Paciência… mas, já começamos a pensar no tal Plano B.

Aviso-bomba da LATAM

De volta ao balcão de check in, encontramos um jovem brasileiro chamado Breno, do interior do Rio de Janeiro, e que estava a trabalho no México, há meses. O rapaz tentava voltar pra casa depois de declarada a pandemia. Ele puxou conversa e nos disse que conseguiu emitir, no tóten, os bilhetes e a identificação das malas, o que era também um bom sinal. Conseguimos fazer a mesma coisa e nos posicionamos numa fila que começou a se formar em frente ao check in, composta por brasileiros e outros sulamericanos que aproveitavam pra chegar mais perto de casa, via São Paulo. Nada de funcionários da LATAM pra iniciar o trabalho… expectativa aumentando…

Dali a poucos minutos, o pessoal da empresa começou a chegar pra iniciar o despacho de bagagens. Foi uma festa! As dezenas de pessoas ansiosas quase aplaudiram, o que não seria mico algum se acontecesse. Nunca presenciamos aquilo antes. Via-se no semblante dos passageiros um sorriso nos lábios, felizes porque o staff da companhia aérea tinha chegado para começar os procedimentos de embarque. Graças a Deus! Sentimos o mesmo alívio. A conversa com Breno foi ficando mais descontraída e amistosa. Ele precisou de ajuda pra despachar a bagagem de mão, que estava pesando horrores, talvez por inexperiência do rapaz, e oferecemos uma mochila vazia, pra ele se organizar melhor e embarcar sem problemas. Coisas de viajantes, amizades que se formam em situações inusitadas.

Bagagens despachadas, fomos correndo anunciar às pessoas no Brasil que estávamos somente aguardando o embarque. A emoção tomou conta de nossos corações, após todas aquelas manifestações virtuais de carinho. Nossos(as) amados(as), no Brasil e em algumas outras paragens do planeta, estavam exultantes e felizes, junto conosco, com aquele desfecho, celebrando nossa iminente volta pra casa. Quanta gratidão sentimos, às lágrimas!…

O portal da volta…

Naquele final de tarde, a decolagem revelou um cenário indíssimo, um céu diferente, com formações de nuvens jamais vistas por nós. Uma delas foi emblemática, pois lembrava um portal posicionado no céu… o nosso portal de volta. O avião estava lotadaço, provavelmente repleto de corações aliviados e saudosos, por gentes que viviam situações similares à nossa.

Nesse voo, com a chegada da noite, uma imagem marcou nossas retinas: uma mancha com pequeninas luzes, observadas da janelinha do avião, chamou nossa atenção. Era a Cidade da Guatemala, sobre a qual passávamos naquele exato momento. Tão curioso lembrar que tivemos de viver uma odisseia (que pareceu um filme) pra sair de lá, por terra, com tanto aperreio… e ali, aquelas luzes iam se distanciando ironicamente de nossas vistas, como que a nos mostrar que certos esforços valem a pena, apesar das incertezas de seus resultados, e que em breve estaremos enxergando as coisas sob uma outra perspectiva, talvez até por meio de um olhar privilegiado.

Aquele cenário nos levou a uma inevitável reflexão, de que as conquistas da vida são frutos de amadurecimento, de coragem, de oportunidades aproveitadas, de desafios, de enfrentamentos necessários (externos e, principalmente, internos), de parceria, de fé, de apoio Superior, de tempo… E a cidade, lá embaixo, foi distanciando, distanciando, desaparecendo, virando história… pairava ainda uma preocupação com as pessoas (de vários países) que ainda estavam por lá… o que seria delas?… Que Deus as abençoasse! Enfim, que lição importante pra nossas vidas!…

O voo México-Brasil foi tranquilo. Avião abarrotado de gente e cuidados redobrados para evitar contaminação. Nitidamente, víamos leveza nos passageiros, por estarem voltando pra casa. Até estávamos dispostos a ficar em Sampa, caso nosso voo pra Aracaju fosse cancelado. E acionamos amigos(as) queridos(as) por lá, a quem pedimos ajuda para encontrar um cantinho pro nosso período de isolamento obrigatório de alguns dias, pois vínhamos do exterior e teríamos que cumprir um tempo sem contato com ninguém. Mas isso não foi necessário, pois o voo estava confirmado, com chegada prevista para 13 horas em nossa terrinha querida.

No desembarque em Aracaju, dia 30 de março, mais procedimentos sanitários, o que foi uma constante em todos os aeroportos por onde passamos nesse período da pandemia, pois os cuidados eram indispensáveis: o nojento do vírus estava à solta e os viajantes eram potenciais vetores de transmissão. Vimos essa cautela e aquilo até nos tranquilizava ao transitar pelos aeroportos. Todavia, sinceramente, estava me sentindo uma plaquetinha de vidro, daquela usada em laboratório, cheia de patógenos festeiros quando vistos pelo microscópio. Quem chegava via aeroporto, parecia um E.T., o povo com os olhos arregalados e uma faixa na testa, onde estava escrito o seguinte pensamento: “será que esses estão contaminados?” (Risos…)

Nossos queridos familiares Darcy e Fabiano foram nos resgatar no aeroporto, levando um carro pra gente poder ir pra casa sem ter proximidade com eles, por razões óbvias. A vontade mesmo era dar um abraço apertado em cada qual, mas infelizmente não era possível, sob risco de contaminá-los. Tínhamos mesmo é que nos isolar em casa. Bastou uma troca de olhares e sorrisos fraternos, cheios de boas-vindas. Ele e ela pareciam representar todas as pessoas amadas que torceram tanto por nós naqueles dias angustiosos que antecederam nossa chegada, e que nos ajudaram com suas preces, com sua vibração, com o rio de carinho que corria em nossa direção, vindo de nascentes tão generosas, tão límpidas. Uma bênção sem preço, pela qual agradeceremos pelo tempo que nos restar, enquanto estivermos encarnados por aqui…

Após reflexões inevitáveis que aconteceram posteriormente àqueles dias inéditos em nossas vidas, algo se destacou em nossos pensamentos: parece que havia uma mensagem cifrada, um recado claro de Deus para nós, como que a nos mostrar ensinamentos ainda não percebidos e que aguardavam momento propício pra chegar até nós… quem sabe uma conversão de karma se desenhou em nossas vidas?… Bem… se aconteceu toda essa história conosco, é porque tínhamos como dar conta. Reconhecemo-nos pessoas de ação. Seria incômodo demais ficar esperando pela sorte, com as possibilidades de solução ali, esperando pela nossa atitude… além disso, há certos riscos que precisam encontrar coragem em nós, para ser vivenciados e superados. Se aconteceu conosco, teve um propósito. Sempre há propósitos. Prestemos atenção!…

Ao final desta narrativa, da qual tivemos que ocultar muitas miudezas (por risco de ficar imensa), é inevitável a reflexão de que parece que precisamos experimentar algumas amarguras, ainda que suavizadas, em lugar de outros problemas que poderiam ser maiores e mais difíceis de solucionar, como uma espécie de compensação, diante do caminho que escolhemos trilhar nesta jornada humana. A Divina Providência não erra! Que compreendamos esses presentes do Céu, agradeçamos pelas chances que nos são ofertadas e tenhamos a lucidez de valorizar a vida, as pessoas à nossa volta, as experiências que nos chamam a amadurecer e a natureza que nos acolhe… sempre!

Post Scriptum – Dias depois…

Uma semana após nossa chegada ao Brasil, e uns 40 dias depois do início da viagem, fomos resgatar o carro de Gardênia que ficou num estacionamento em Salvador/BA, ao lado do aeroporto, de onde partimos para viver essa história incrível. Foi um bate-e-volta, saindo bem cedinho de Aracaju e retornando ao final da tarde… resquícios da aventura na Guatemala…

E cerca de quinze dias após nosso desembarque em Aracaju, chegou até nós a notícia de que os brasileiros foram resgatados na Guatemala, por meio de um voo humanitário que passou em vários países ali perto. Outro alívio, pois sabíamos que algumas pessoas ainda estavam lá, precisando retornar pra casa… seria esse o nosso destino, correr risco por mais algumas semanas, se não fosse tomada aquela decisão de voltar logo para o Brasil.


Agente de Viagens Marcelo Farjalla:

Contatos: (79) 99927-4235 ou 3246-1859

Site da agência: http://www.viagensmundi.com.br/

Instagram: @marcelofarjalla


Hospedagem na Cidade da Guatemala:

Casa Mesa (proprietários: Sr. Gillermo e D.Lucía)

Link para Booking: https://www.booking.com/hotel/gt/apartamento-47-guest-house-zone-10-oakland-guatemala-city.pt-br.html


* Este não é um post patrocinado. O espírito do blog é de narrar histórias e experiências, de forma que esse escrito reflete unicamente a opinião dos autores.

** Viagem realizada em março de 2020.

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