COMO AS VIAGENS TRANSFORMAM…

QUADRO 1 - 1

Viajar é transformador. Individual e coletivamente. “Viajar é trocar a roupa da alma”, um clichê tantas vezes repetido. É transformador sim. Pra pessoas e pros lugares.
Pras pessoas, desconheço alguém que transformou pra pior porque viajou.
Mas, pros lugares, o viajar nem sempre é bom. Nós, os viajantes, causamos grande impacto nos lugares aonde vamos, impacto que nem sempre é positivo. Nós, os viajantes, alteramos e destruímos ecossistemas, pra falar de um aspecto.

Pensando nessas coisas, vendo as stories de @janelasabertas um dia desses, me deparei com a indicação de um livro: Overbooked The Exploding Business of Travel and Tourism (Elizabeth Becker). Ali, Luísa, a autora do perfil no Instagram (e do blog de mesmo nome – recomendo muito!!!), chamava a atenção para a ideia do livro (traduzindo livremente um trecho): “há séculos, antropólogos vêm prevendo o que tem acontecido: o turismo de massa transforma culturas locais em commodities pra entreter estrangeiros. Esses turistas demandam hotéis e refeições de acordo com um padrão homogêneo, e pouco a pouco (…), isso faz com que os lugares percam sua identidade”.

Já vinha refletindo sobre temas correlatos, como o viajar mais lento, o transformar o olhar para as viagens, a consciência e responsabilidade no turismo (e do turista)… e a indicação chamou a bastante atenção.

Mas tinha um senão: o livro era em inglês. Não tem versão traduzida pro português. A vontade de ler, então, transformou-se num desafio (difícil!!!) a mim mesma: ler o meu primeiro livro em inglês. E assim está sendo…

O livro tem se revelado (porque ainda estou lendo) um descortinar pras realidades tristes e duras que o turismo traz. A gente se engana com o turismo. Eu mesma já disse, inúmeras vezes, que era uma “indústria limpa”. Puro engano. É uma indústria que polui muito, que destrói ecossistemas sem o menor pudor, que acaba com a autenticidade de culturas locais. O livro (baseado em pesquisas feitas pela autora e em dados estatísticos) abre os nossos olhos, mostrando o que e o quanto a indústria do turismo é capaz de fazer pra crescer (e multiplicar seus lucros). O livro traz luz sobre essa nossa ilusão de que viajar é “inofensivo”.

LIVRO 2 - 1

Elizabeth Becker traz informações de pasmar: turismo e viagens são responsáveis por 5,3% das emissões de carbono no mundo e pela degradação de quase todas as praias tropicais do globo; crianças africanas disseram pra antropólogos(as) que elas querem ser turistas quando crescerem, porque então elas podem passar o dia “fazendo nada” e comendo; Veneza recebe entre 20 e 24 milhões de turistas por ano, com uma população atual de 59 mil pessoas; os Emirados Árabes são o maior consumidor de água engarrafada do mundo (imagine o consumo de plástico!!); cada campo de golfe dos Emirados Árabes gasta, pra irrigar o gramado, água equivalente à consumida por uma cidade de 12.000 habitantes, no mesmo período de tempo; um navio de cruzeiro produz (entre outros dejetos), em um dia, 80.000 litros de esgoto, uma tonelada de lixo sólido, 643.000 litros de água usada em banheiros, pias e lavanderias, 8.500 garrafas plásticas… são algumas das verdades que se escancaram diante de nossos olhos!

E diz Elizabeth Becker: “Viajar é um prazer extraordinário e também um privilégio. Hoje, é considerado um direito básico sem limites ou senso de responsabilidade sobre como todas essas viagens estão afetando os lugares que amamos.” (tradução livre).

É. Nós, os viajantes, alteramos e destruímos ecossistemas, comunidades!…

Mas, pra além de qualquer sentimento de desmotivação, esse conhecimento traz o convite pra revermos as nossas formas de viajar, nossas formas de nos relacionar com os lugares onde vamos, diminuindo o mais possível nosso impacto negativo, não só no meio ambiente, mas também nas comunidades e culturas que visitamos. Ou todos(as) não somos parte do meio ambiente?!

Nesses tempos (estamos falando de 2020), a gente tem falado muito sobre o futuro. A incerteza dos dias de hoje traz junto uma incerteza ainda maior com relação aos amanhãs. No universo das viagens, essa incerteza é muito forte. Os viajantes estamos a nos perguntar quando poderemos voltar a viajar, como serão essas viagens, pra onde… A todo tempo, a gente se bate com enquetes, de agências e “produtores de conteúdo” de viagens, questionando a intenção do público sobre voltar a viajar, sobre os destinos a serem escolhidos…

Mas, talvez bem mais que pensar no futuro, devemos e precisamos pensar no passado, na forma como vínhamos lidando com essas interações que as viagens proporcionam, sejam com a natureza, com as pessoas, com os lugares, com as culturas… pra revermos conceitos, paradigmas, escolhas…

O chamado (e a torcida) pra o que vamos viver daqui em diante, é de um turismo mais consciente, mais profundo, com alma. Um turismo que vai buscar viver mais experiências, entender a cultura e a história dos lugares. Um turismo sem pressa, sem a “necessidade” de visitar todos os pontos turísticos de um lugar, pra tirar as fotos mais “instagramáveis” e postar nas redes sociais.

Um turismo que tem tempo pra sentar à mesa de um restaurante local e “devorar”, junto com a comida, a história e os costumes que existem por trás do prato. Um turismo que tem tempo de sentar em um café e, enquanto degusta uma bebida, observar a vida passar.

É urgente compreender que uma viagem não é apenas um tempo que tiramos pra passar fora de casa, passeando por lugares bonitos e comendo coisas gostosas. É isso. Mas precisa ser também um ato de responsabilidade, principalmente nas nossas escolhas com relação a como queremos estabelecer essa relação de impacto com os lugares que visitamos… se deixaremos uma “pegada” de acréscimo e cooperação, ou de exploração e destruição.

Há uma série de pequenas-grandes escolhas que podemos fazer, ao decidir viajar, e que podem ajudar a ter uma relação bem positiva com os lugares que visitamos, com as pessoas, com o planeta… talvez falemos delas em um outro texto, mas, por ora, ficam as sugestões: busque ficar mais tempo em cada lugar (quanto mais deslocamentos, mais emissão de carbono); dê preferência ao transporte público; procure voos diretos ou com menos escalas (também pra menos emissão de carbono); não leve partes (rochas, conchas…) dos espaços naturais que visite, nem deixe pra trás o lixo que produzir; respeite as pessoas das cidades e comunidades que visite; valorize e vivencie a cultura e a produção local; evite o turismo que explora animais… leve sua garrafa de água e use sacolas reutilizáveis.

Viajar é um prazer. Viajar é um privilégio. Viajar não é um direito, muito menos básico e, muito menos ainda, pra ser vivido sem limites ou senso de responsabilidade. Viajar é transformador. E essa transformação precisa incluir, além de todo o conhecimento que adquirimos, uma vivência consciente e responsável na interação com o mundo, pra que a nossa forma de “afetar” enriqueça os lugares que vamos, os lugares que visitamos, os lugares que amamos.

Vamos viver essa transformação!

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